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No campo de Za'atari, a história de dois irmãos que perderam as pernas.

Os refugiados Walid e Radwan foram atingidos em fogo cruzado na província de Da'ara, no sul da Síria, e agora dão apoio um ao outro em recuperação




“A primeira coisa que você precisa saber sobre mim é que eu ligo mais para o bem estar da minha família do que para o meu. Se eles estiverem bem, então eu estou bem”, diz o jovem sírio Walid, de 29 anos. A necessidade de explicar sua característica mais marcante lhe parece essencial para sua história, uma vez que ele só se encontra hoje, ferido e em tratamento na unidade médica de tratamento pós-operatório que a Médicos sem Fronteiras (MSF) toca dentro do campo de refugiados de Za’atari, no norte da Jordânia, por causa de seu zelo com a família.
Walid perdeu a perna direita depois de 16 horas de espera por atendimento na província de Dara’a, no sul da Síria, em novembro de 2015. Ironicamente, ele seria ferido na parte de fora de um hospital, onde havia ido para visitar o irmão mais novo, Radwan, de 22 anos, machucado acidentalmente horas antes em embates nas proximidades da casa da família. "No caminho eu só esperava que meu irmão estivesse com um ferimento leve, que não corresse risco de vida”, diz o jovem.

Ao chegar ao hospital onde estava o irmão, Walid encontrou Radwan trancado em uma ambulância do lado de fora do local, enquanto um helicóptero sobrevoava de maneira suspeita a região. "Todos foram para dentro e desligaram as luzes, eles se protegeram. Eu me recusei a fazer isso, eu queria me certificar que meu irmão estava a salvo. Eu pensei: ou vivemos juntos ou morremos juntos nesse bombardeio", lembra o jovem. A aeronave passou a bombardear o hospital e atingiu Walid em sua perna direita, que seria amputada por razão do ferimento – o irmão Radwan também perderia parte do mesmo membro. "Quando meu pai viu meu estado, ele ficou muito perturbado e triste. Ele antes estava pensando em um filho só, agora tinha dois filhos feridos", relembra Walid. Em seu vilarejo natal, Namra, ele é o responsável por ajudar o pai na quitanda que pertence à família.

Uma vez na Jordânia, Walid e Radwan seriam tratados no hospital para emergências em Ramtha, também coordenado pela MSF. "Passei por três cirurgias nas quais eles tentaram salvar a perna, mas infelizmente era muito tarde, os tecidos estavam mortos. No terceiro dia, eles me disseram que precisavam amputar minha perna e foi quando tudo se tornou escuro. A vida não era justa, eu não queria ficar assim, eu era uma pessoa muito saudável e agora me tornei um deficiente. E isso era difícil de aceitar", relembra o jovem.

Concluídas as operações, os dois irmãos agora se recuperam na unidade médica dentro do campo de Za’atari, fazem sessões de fisioterapia e esperam poder voltar à Síria em breve. "Passo noites acordado em que eu fico só lembrando da minha família, chorando porque sinto falta deles, porque estou longe. Toda vez que penso que estou me aproximando de voltar para casa, ainda estou longe. No começo me diziam um mês, agora são dois. Eu não quero ser um fardo para ninguém, mas eu preferia ir para casa, mesmo que não ande nunca mais”, diz. Walid é recém-casado e tem um filho de pouco mais de 8 meses a quem chamou de Sham, que em árabe significa “A Grande Síria”.


Apesar do próprio sofrimento, Walid, como irmão mais velho, faz tudo o que pode para apoiar Radwan. “Ele sofreu muito, ele era o melhor jogador de futebol de toda Dara’a”, conta Walid. O menino de 22 anos senta timidamente ao lado do irmão, fala pouco e pede que não se tirem fotos da perna amputada. Só sorri quando lhe perguntam sobre seu jogador de futebol favorito. “(Lionel) Messi, mas os brasileiros são bons também”, afirma Radwan, diplomático.

Para o futuro de Sham e da Síria, Walid têm modestas, mas ao que tudo indica, difíceis ambições. "Queria que parassem com a matança. Que a destruição, que o derramamento de sangue pare. Que nós paremos de ir dormir com medo de não acordar ou que nossa casa vá ser bombardeada a qualquer momento. E que eu não tenha que me preocupar se meus irmãos saindo de casa nunca voltarão", diz o jovem.
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FONTE: Época Globo/Tempo - 04/05/2016

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