Galeria de marcadores

JUSTIÇA: AMIGAS INSEPARÁVEIS - COMENTADO POR GATA DE RODAS


Fiquei ansiosa para assistir "Justiça", a minissérie da Rede Globo que estreou na segunda, 22/08/2016 e acabou na sexta, 23/09/2016. Achei as quatro histórias polêmicas e envolvente, mas a que mais me chamou a atenção foi a história das Amigas Inseparáveis que passava às quintas-feiras. Em Amigas Inseparáveis, Rose (Jéssica Ellen) é negra e filha da empregada da casa de Débora. Rose é muito esforçada e conseguiu passar no vestibular. Débora (Luisa Arraes) é branca e filha de uma conhecia repórter de TV. Ambas são amiga desde sempre e a distinção de cor ou classe social nunca existiu na relação das duas.

Em um luau que comemorava o aniversário de Rose, elas compram drogas para consumo próprio e também para os amigos. O problema é que ocorre uma batida policial no luau e somente as pessoas negras são abordadas pelo policial Douglas e Rose por ser "moreninha" (foi assim mesmo que o policial Douglas se referiu a ela) acaba sendo presa por porte de drogas e enquanto ela vai presa, Débora passa impune, já que é branca e também porque não tem coragem de dividir a culpa.

Rose, passa sete anos na cadeia e vê seu futuro desmoronar e até mesmo sua mãe falece no período em que estava presa. Rose resolve, então, reencontrar a amiga sem cobrar nada, momento que descobre que Débora, agora casada com Marcelo e morando com ele, se tornou uma mulher fragilizada após sofrer um estupro e que em decorrência desse crime, não pode mais ter filhos. Juntas elas decidem encontrar o criminoso.


Achei interessante a história das duas amigas, mas teria sido melhor se Rose fosse mais atuante em sua própria história, pois foi assim com os outros três protagonistas das outras histórias. Rose cometeu um crime e pagou pelo erro, mas também tinha uma revanche, um acerto de contas com seu algoz, afinal ela sentiu na pele a força do preconceito já que a sua prisão deu-se não somente pelo porte de drogas, mas também pelo fato dela ser negra, uma vez que as pessoas brancas foram liberadas da revista policial e só os negros foram detidos.

Baseado no que foi anunciado na TV sobre a minissérie, não tive dúvidas que Rose ao sair da cadeia, iria ter como objetivo procurar Douglas, o policial que efetuou a sua prisão, e tentar provar que ele era um mau caráter que agia de forma arbitrária e preconceituosa oprimindo, descriminando e marginalizando os negros  em suas abordagens.


Mas, ao contrário do que eu imaginei, Rose não só reata com Celso, seu amor bandido quando era adolescente e que também não fez nada quando ela foi detida, como também perdoa a sua melhor amiga que nem se quer foi visitá-la na cadeia.


E por receio que a amiga fizesse alguma loucura, Rose pede para Celso arranjar alguns capangas para ajudar Debora a dar uma lição no estuprador. 




A caçada por justiça, entretanto, terá grande impacto no casamento de Débora e Marcelo já que o casal está passando por processo de adoção de uma criança. Para ele, o melhor é seguir adiante e não perder a chance de ser feliz. Mas isso não é possível para Débora, que é constantemente atormentada pela lembrança dos momentos de terror que passou nas mãos do estuprador Oswaldo.

Não que o estupro não seja um questão importante, mas não era esse o drama vivido por Rose. Ao se propor a ajudar a amiga, Rose deixou de ser protagonista e passou a ser coadjuvante na história do estupro de Débora e a questão do preconceito que parecia ser a força motriz da história das Amigas Inseparáveis, acabou ficando para segundo plano, praticamente esquecido.


Rose, em uma rara expressão de revolta contra o preconceito, diz que foi na cadeia que ela aprendeu que era pobre e negra, porém essa importante constatação que deveria mudar o rumo da história não emplacou, tanto que Rose quando se depara com o policial Douglas na faculdade a qual ela iria estudar antes de ser presa, ela simplesmente se esconde com medo de ser reconhecida.

Talvez como o objetivo de impactar, ela até aparece de cabelo solto assumindo o seu "black power", power esse que no andar da carruagem da minissérie não teve poder algum de mudar o seu desfecho de seu papel na minissérie.


Rose parecia mais uma emissária da desgraça na vida de sua amiga Débora. Tão logo Débora abriga Rose em sua casa, parece que tudo de ruim acontece com a amiga: a sede de justiça/vingança de Débora contra o estuprador desperta, Débora perde o marido, perde o emprego, perde a chance a adotar uma criança, mata o estuprador e ainda perde o rumo de sua vida.

E para piorar, para continuar a sina amaldiçoada de Rose, ao engravidar de Celso e com ele resolver constituir uma família, sem saber, acaba ajudando Douglas a se dar bem com a prostituta Kellen, o grande amor da vida do policial, que parece que na minissérie toda só errou ao implantar drogas no quintal de vizinha que matara o seu cachorro.


Na minissérie inteira, deu a entender que Rose só acertou mesmo ao evitar que a pequena Jéssica, filha de uma amiga que conheceu na prisão, fosse levada para a delegacia pela polícia quando Poltergeist foi presa em flagrante vendendo drogas com a criança no colo e em bonito gesto de amor, decidiu criá-la junto com Celso.


Justiça, escrita por Manuela Dias, contou quatro histórias diferentes que se interligam em determinados momento. Em todas as histórias, um personagem comete algum crime e fica preso durante sete anos. 


A minissérie mostrou como essas pessoas reconstroem suas vidas após saírem da prisão. A trama não tratou de leis ou processos jurídicos, mas sim do conceito de justo sob o ponto de vista ético e moral. Perdão, vingança e arrependimento foram alguns dos assuntos em pauta.

Amigas Inseparáveis, não só foi injusta com Rose ao tirar a rara oportunidade de uma mulher negra ser protagonista de uma minissérie na televisão brasileira, uma vez que quem brilhou mesmo foi a personagem Débora, que era branca, mas também foi sacana ao abafar o racismo sofrido por Rose, uma vez que a relegou a uma passividade patética mediante o preconceito racial que fora determinante para sua prisão.

Valeu mesmo pela ótima interpretação da jovem atriz Jéssica Ellen que arrasou ao dar vida a Rose que infelizmente só foi mais uma personagem negra em uma minissérie de brancos, sem falar que, na relação de amizade que unia Rose e Débora, só mesmo Rose nutria a verdadeira e sincera amizade naquela que seria a história de duas Amigas Inseparáveis e amigas desde sempre.


Conforme um artigo que eu li no Mix de Séries sobre Justiça: Amigas Inseparáveis e que dizia algo como: "Passaram sete anos, e as duas viraram pessoas completamente diferentes, modificadas por esse mundo cruel que nós enfrentamos todos os dias. E o que mais me doeu foi o final do episódio, quando as duas planejam a vingança contra o estuprador de Débora, mas nada é revisto sobre os sete anos que Rose perdeu na prisão, como se o racismo fosse algo que precisamos apenas engolir seco, sem contestar. No Brasil é assim, quando não dá para resolver, a gente muda de assunto", foi doído constatar que esse foi o frustante desfecho da história de Rose.

_______________________________

* Todas as fotos da minissérie Justiça: Reprodução/Google


 Fique por dentro das notícias com o Blog Gata de Rodas
Bora lá seguir e se cadastrar: www.gataderodas.com     
E receba matérias exclusivas. Beijos 

Nenhum comentário :

Postar um comentário

Topo