22/09/2019

Gata de Rodas: Com deficiência, lutou pra estudar e hoje abre Parada LGBT de São Paulo

Gata de Rodas: Com deficiência, lutou pra estudar e hoje abre Parada LGBT de São Paulo
Ser uma pessoa com deficiência física é desde sempre algo na vida da ativista Ivone de Oliveira. Nascida em 1968, ela foi diagnosticada com poliomielite aos seis meses e sua família foi avisada de que ela nunca iria andar. A cadeira de roda virou uma extensão do carrinho de bebê. E a família, precisou lidar com a criança "Longe da Árvore" que crescia diferente de todas as crianças. Sem muito incentivo para experimentar vivências comuns, como ir à escola e conhecer amigos, Ivone se sentia isolada. Até quase 40 anos, ela nunca tinha convivido com outras pessoas com deficiência. Hoje, é conhecida nas redes sociais como a "Gata de rodas".

"Longe da Árvore" é o nome do documentário que será lançado nesta quinta-feira (19), inspirado no best-seller de mesmo nome, escrito por Andrew Solomon. Ele fez uma investigação sobre como famílias lidam com as diferenças com base em sua própria vida, ao revelar para os pais que é gay. "Minha mãe imaginava que seu primeiro filho seria uma criança popular na escola, atlética, sem conflitos com o mundo e basicamente convencional", diz o autor. "E, ao contrário, ela teve a mim". No mês da Diversidade e próximo ao Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, no próximo sábado (21), Ivone que também escreve no blog Gata de Rodas sobre inclusão social, deficiência e LGBTQI+, relembra para Universa o tanto que precisou se esforçar para "plantar sua própria árvore", a despeito da postura de seus familiares. 

O depoimento é o primeiro da série de reportagens que trazemos sobre núcleos familiares que enfrentam preconceitos e batalhas simplesmente por terem indivíduos que ousam não esconder quem são.

Filhos diferentes dos pais, nascidos com alguma deficiência fora de padrões estéticos, de orientação sexual, de identidade de gênero. Os que a sociedade insiste em tratar como "exceção", "anormal", "minorizado" têm, aqui, suas histórias de amor e dificuldades contadas com a proposta de plantar, sempre, a diversidade no mundo.

"Fui plantando minha própria árvore"

"Eu sou de uma época que a pessoa com deficiência era totalmente 'longe da árvore', da família e da sociedade. Nunca tive muito incentivo para nada, trabalho, estudo, namoro. Hoje, eu sei que minha família gosta de mim, mas sempre fizeram questão de me podar, querendo me deixar na sombra da ignorância, para evitar a fadiga, sabe? Eles nunca me deram uma cadeira de roda, por exemplo. As cadeiras de rodas eu ganhei de amigos e vizinhos. No total foram 3 cadeiras de rodas manual que eu ganhei: a primeira foi através de um sorteio no programa de rádio do locutor que a servente da escola me inscreveu. A segunda foi de um vizinho. A terceira de uma amiga de trabalho. Já a quarta que é essa cadeira de rodas motorizada que eu uso atualmente, eu ganhei de uma amiga querida que me acompanha nos eventos e é a fotógrafa do Blog Gata de Rodas.


Então, eu fui plantando minha própria árvore. Como nem tudo são flores, eu encontrei o meu primeiro espinho no caminho passei quando para 5ª série do antigo Ginásio e eu teria que estudar no 1º andar e por falta de acessibilidade, eu tive que parar de estudar por longos quatro anos, só retornei depois que a escola remanejou as salas de aulas. Em 2013 realizei o meu sonho de tornar bacharel de Ciências Contábeis. 'Outro episódio foi com o meu pai. Eu quando era criança pedi um dinheiro para o meu pai para comprar um sapato. Ele respondeu: pra que se eu não ando'. 

Voto aos 18 e militância

"Aos 18, quis tirar o titulo de eleitor. Eu sempre achei importante exercer a cidadania, então faço questão de votar nas eleições. Por ironia do destino, em uma determinada eleição, a minha seção foi do térreo para o 1º andar e como a escola não tem rampa e nem elevador, eu fui orientada e justificar o voto, mas eu não aceite. Bati de frente e exigi que providências fossem tomadas. Fui levada no colo até a sala de votação enquanto um fiscal subiu a minha cadeira de rodas. Acredito que essa foi a primeira vez que eu me emponderei e exigi os meus direitos".


Em 2007, "mesmo com a minha mãe não querendo que eu trabalhasse, porque eu não estaria passando fome. Eu já havia plantando a minha segunda árvore de amigos e passei a trabalhar uma empresa de telemarketing, uma das poucas áreas que dão oportunidade para cadeirantes. A partir daí, passei a sair de casa. Vi outros amigos de trabalhos que usavam cadeira de rodas, que não conhecia. Eu tinha um brilho nos olhos. Então, conheci um ativista, Valdir Timóteo, que me convidou para participar de uma ação no Parque Ibirapuera, em 2010. Então, eu quis me envolver mais na causa da pessoa com deficiência, mas era preciso estourar a bolha da invisibilidade da pessoa com deficiência".

"Gata de rodas" e militância na Parada 

"Um 'problemão' que tive foi no sentido afetivo, já em relação amizades, nunca tive nenhum preconceito. Mas, um episódio da adolescência ficou marcado pra mim. Comecei a paquerar um amigo da escola, mas ele só ficava comigo escondido. Isso me incomodou e eu perguntei, porque escondido. E ele falou que era porque tinha vergonha de mim. Para piorar, uma priminha me viu e contou para minha mãe. Minha mãe falou que 'não dava conta nem de mim, estava arrumando mais problema'. 

Então, falei para mim que não ia ter nenhum outro relacionamento. Me fechei para o amor. Mas, eu sempre pensei que o problema era das pessoas, não meu. Eu nunca tive vergonha do meu corpo. É de se perguntar: como ter uma autoestima, sendo rejeitada ao longo da vida? Não falava de forma aberta sobre a minha orientação sexual, mas sou bissexual. Em 2016, quebrei os paradigmas do tabu da sexualidade da pessoa com deficiência. Ano que eu fui pela primeira vez para a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, como participante, e fiquei vendo que faltava a representatividade da pessoa com deficiência LGBTQI+ e faltava acessibilidade. Entrei em contato com a organização e apresentei um projeto de inclusão da pessoa com deficiência. Desde 2017, as pessoas com deficiência LGBTs abrem a maior Parada do Orgulho LGBT do mundo.

No início dessa construção foi apresentado muita luta dentro da minha família, mas, no meio do caminho eu conheci uma amiga, lésbica, negra, que me ajudou a quebrar esse distanciamento com a minha família. Agora, eu falo com eles sobre racismo e o mundo LGBT sem forçar a barra. Já está bem diferente esse convívio familiar. Essa foto da matéria representa uma virada na minha vida, porque não tinha nenhuma foto com eles. Eles tinham vergonha de tirar foto comigo! Acho que não virei uma pessoa depressiva porque nunca trouxe o problema para mim. Esse é o segredo!". 
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