03/11/2019

Roda de conversa "Diversidade corporativa - Onde estamos? Para onde vamos?" Corpos dissidentes em pauta

Meu corpo é resistência

Pois é! Na quinta-feira, 31/10/2019, em pleno dia de Halloween, a Gata de Rodas botou para correr o fantasma do capacitismo que assombra o mercado de trabalho para as pessoas com deficiência participando da roda de conversa "Diversidade corporativa - Onde estamos? Para onde vamos?" que aconteceu na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo/FESPSP.
Promovida pelo Coletivo Revolta da Lâmpada em parceria com a Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo/FESPSP, a roda de conversa "Diversidade corporativa - Onde estamos? Para onde vamos?" foi parte integrante da CICLA DAS 5 que nesse ano abordou vários tópicos que tangenciam a crescente precarização do trabalho para jovens de minorias sociais no Brasil.
Mediada pela  queridíssima Magô Tonhon, a importante e necessária  roda de conversas "Diversidade corporativa - Onde estamos? Para onde vamos?", contou a participação da Gata de Rodas (mulher cadeirante), Igor Augustineli ( jovem autista), Jef Martins (soropositivo ao HIV) e Ericah Azeviche (mulher negra), enfim de corpos considerados dissidentes para o mercado de trabalho.
Em recortes, eu fiz narrativas sobre as minhas experiências no mercado informal/formal de trabalho e também sobre as Leis de Cotas destinadas às pessoas com deficiência considerando que foi através da Lei de Cotas, que eu fui inserida pela primeira vez no mercado formal de trabalho e nessa empresa eu fiquei por mais de 10 anos e foi por causa desse trabalho formal, que eu pude pagar a minha tão sonhada Faculdade de Contabilidade e hoje eu tenho uma profissão.

Podemos parecer que somos poucos porque somos invisibilizados, mas na realidade, segundo o último censo demográfico do IBGE, somos 45 milhões de brasileiros tem algum tipo de deficiência.

Em vigor há 28 anos, a Lei de Cotas prevê que empresas com 100 ou mais funcionários tenham entre 2% e 5% de trabalhadores com deficiência. No entanto, segundo dados da Secretaria do Trabalho, do Ministério da Economia, este percentual nunca passou de 1%.

Quais são as dificuldades na aplicação da Lei de Cotas?

Apesar do crescimento observado no mercado de trabalho destinado a pessoa com deficiência, ao longo dos últimos anos, ainda está longe do ideal.

No campo das dificuldades encontramos basicamente:

- a falta de infraestrutura: por isso é muito comum as empresas buscarem trabalhadores com deficiências consideradas mais leves, que não impliquem em grandes modificações estruturais ou na comunicação, no caso dos surdos”.

– Sem contar a velha desculpa e "desqualificação" em "ser difícil encontrar" pessoa com deficiência com o perfil exigido pela empresa para preencher as cotas.

Na verdade, falta de empatia dos gestores que cumprem a Lei de Cotas somente para não levar multa, porque a maioria dos contratantes ainda enxerga as pessoas com deficiência como uma despesa, e não como um investimento. Porém contratar uma pessoa com deficiência não deve ser apenas algo quantitativo, mas também qualitativo.

Conviver com uma pessoa com deficiência pode ser uma novidade para grande parte das pessoas, esse desconhecimento é fruto da invisibilidade que nos acompanha desde os primórdios. Porém, sem entendimento, não há respeito. Então, é preciso conviver e assim desmistificar e quebrar os paradigmas que dificultam a inserção da pessoa com deficiência nas empresas.
E para além da legislação, é preciso também avançar na inclusão escolar das pessoas com deficiência e melhorar (e muito) as condições gerais transporte e de acessibilidade nos bairros e municípios.

Ao longo da história, nas sociedades em que eram estigmatizadas, a sobrevivência das pessoas com deficiência que resistiram a rejeição, a ridicularização, ao cárcere e ao abandono, dependeu basicamente da mendicância, da caridade, de trabalhos em circos para diversão dos abastados e da prostituição.

–  deficientes intelectuais eram tratados como bobos da corte.

Um vil mercado de prostituição e de entretenimento utilizou pessoas com deficiência comercialmente.

Deficientes físicos e sensorial viviam à margem da sociedade com recursos de parcas esmolas.

Homens e mulheres com deficiência, corcundas, anões, albinos eram diversão dos mais abastados. 

Somente na Idade Moderna, com a passagem de um período de extrema ignorância para o nascer de novas ideias, que a mentalidade social da época começou a ter consciência da necessidade de aceitação de novos conceitos.

Apesar de todos os avanços, em pleno século XXI, ainda é grande os resquícios daqueles tempos antigos para com a pessoa com deficiência:

nas ruas, nas praças e até mesmo no transporte público cadeirantes ainda pedem esmola.

- por ser autista, a jovem Greta Thunberg, de 16 anos, ativista ambiental sueca, foi vítima deboche nas redes sociais. Um colaborador da Fox News chegou até a descrever a jovem, que tem síndrome de Asperger, como doente mental, sendo que autismo, é um transtorno neurológico.

No dia 21/10/2019 MC Gui postou um vídeo no Instagram (que depois foi apagado) zombando da aparência de uma menina (supostamente de nome Jully, de 7 anos, que tem câncer e que usava uma peruca por conta do tratamento de quimioterapia).

apesar da doação de R$ 1,5 milhão, o empresário Luciano Hang, proprietário da Havan, reconhecida como uma das maiores redes de lojas de departamentos do Brasil, no programa Teleton 2019, que aconteceu nos dias 26 e 27/10/2019, fez uma infeliz declaração: “Se você tem um filho são, ao contrário dos que estão aqui, faça sua doação.”

São essas mentalidades, desinformadas, capacitistas e preconceituosas que impedem a inserção da pessoa com deficiência na sociedade e consequentemente, no mercado de trabalho.

Porém, é de extrema importante que as pessoas com deficiência também queiram mudar esse "status quo". 

Deficiente é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino”- Mário Quintana
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Um comentário:

  1. redito Gata de rodas que realmente precisamos avançar fazer com que as empresas comecem de fato a se desconstruir.
    Pessoas com Pcds são capazes de atuar normalmente no mercado de trabalho.
    É preciso leis mais rígidas pra que seja cumprida a lei e que os gestores passem por um novo aprendizado pra fazer essa inserção de forma natural.
    Infelizmente estamos caminhando a passos lentos mas o importante é não parar. São trabalhos como o seu que trazem novos olhares e uma nova perspectiva. Parabéns pela iniciativa e pelo texto. Que você seja a revolução que todos precisam pois, através de você é que muitos Pcds acreditam que tudo é possível. Estou orgulhoso e grato por saber que existe no mundo um ser humano como você. Espero que nessa estrada da vida possamos nos encontrar em breve.
    Sinta-se beijada e abraçada por nós do @homemtransbr com muitoooi carinho.

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