26/06/2020

Quando a zona de conforto começa a estreitar.

Você muda ou sufoca?
Hoje vou descrever um episódio sobre a “zona de conforto” e o que fazer quando ela começa a se estreitar.

Você muda ou sufoca?

Por eu ter sido uma criança com deficiência, uma adolescente com deficiência e depois uma adulta com deficiência.

Uma grande parcela da minha vida vivi na “zona de conforto”, porque sou dependente da minha família.

Foram três processos importantes da minha vida e a minha família não acompanhou comigo esse processo de evolução me tornando uma mulher com deficiência (cadeirante), madura.

Quando criança eu não tinha a percepção que a zona de conforto já estava começando a se estreitar, mas esse processo começou desde essa época.

Com gestos sutis, meus irmão podiam participar da vida social indo aos lugares e eu sempre ficando em casa na companhia da minha bisavó que me dava toda atenção do mundo.

Passando um tempo chegou a fase escolar, vida social.

Lá, estava eu com oito anos de idade, meu primeiro contato com crianças e com elas nenhum tipo de deficiência.

Eu recordo que fui bastante aceita pelas crianças e não houve estranhamento pelo fato de ser usuária de cadeira de rodas. Elas viam a minha cadeira de rodas como um brinquedo divertido.

Mas, como nem tudo são flores, eu encontrei o meu primeiro espinho no caminho, precisei passar para 5ª série do antigo Ginásio e eu teria que estudar no 1º andar e por falta de acessibilidade, eu tive que parar de estudar por longos quatro anos, só retornei depois que a escola remanejou as salas de aulas.

E a minha família por sua vez negou ou negligenciou lutar por mim para que eu continuasse os estudos.

Quatro anos depois volto a estudar, já como adolescente.

Muitos estudos, amizades e paqueras, claro!

Lembro que eu me apaixonei por um garoto e fui correspondida, mas ele não ficava comigo em público e  sempre foi as escondidas nossos encontros. Tempos depois descobri que ele tinha vergonha, porque sou deficiente.

Essa história chegou nos ouvidos da minha mãe. Ela por sua vez totalmente contra que eu namorasse. Falando a seguinte frase: “você não dá conta nem de cuidar de você”. Acabei me fechando para o amor, pois entendia naquele momento que meu corpo com deficiência era negado para sexualidade.

Quem me conhece sabe que eu nunca tive vergonha do meu corpo e segui a minha vida.

Na fase adulta, por volta dos meus 38 anos resolvi me permitir viver intensamente o amor, mas valorizando acima de tudo o meu amor-próprio.

Nada as escondidas!

Voltando aos meus 18 anos, eu quis tirar o título de eleitor. Eu sempre achei importante exercer a cidadania, então faço questão de votar nas eleições. Por ironia do destino, em uma determinada eleição, a minha seção foi do térreo para o 1º andar e como a escola não tem rampa e nem elevador, eu fui orientada e justificar o voto, mas eu não aceite. Bati de frente e exigi que providências fossem tomadas. Fui levada no colo até a sala de votação enquanto um fiscal subiu a minha cadeira de rodas. Acredito que essa foi a primeira vez que eu me emponderei e exigi os meus direitos e comecei a sair da “zona de conforto”.

Em 2007, "mesmo com a minha mãe não querendo que eu trabalhasse, porque eu não estaria passando fome. Eu passei a não aceitar a "zona de conforto". Fui trabalhar para uma empresa de telemarketing, uma das poucas áreas que dão oportunidade para cadeirantes. A partir daí, passei a sair de casa. E comecei a fazer outras amizades no trabalho de pessoas que usavam cadeira de rodas, que eu não conhecia nem por foto. Aliás, por muito tempo da minha vida eu cheguei a pensar que eu era única pessoa no mundo que tinha deficiência, porque até 2006, eu não tinha conhecimento sobre os meus iguais. Eu tive um brilho nos olhos quando os vi pela primeira vez pessoalmente e a cores. Então, conheci um ativista, Valdir Timóteo, que me convidou para participar de uma ação no Parque Ibirapuera, em 2010. Então, eu quis me envolver mais na causa da pessoa com deficiência, mas era preciso estourar a bolha da invisibilidade da pessoa com deficiência".

Então, eu optei em mudar e sair da “zona de conforto”. 

Jamais serei sufocada a viver uma vida que não seja a minha!

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